Farmácia de Mel

Por Alex Maktub 30/04/2021 - 10:21 hs

Há tempos que eu não experimentava mel. Mel puro mesmo, daqueles em que é possível sentir até o gosto cinzento da colmeia se esfarelando na boca. Assim que meu paladar foi invadido pelo sabor intenso da infância, a lembrança foi inevitável. Lembrei-me de quando morava ao lado de uma farmácia, numa das avenidas mais movimentadas da cidade. E para aumentar ainda mais o fluxo de gente e de carros, como se eu inexistisse no mundo: um ponto de ônibus, um supermercado, uma oficina e uma padaria. Tudo junto e misturado, bem no popular.

Avistando o vai e vem dos carros, ao lado da farmácia, um banquinho. E não por acaso, ali passara meus dias intermináveis. Angustiado pela falta de afazeres de uma criança comum, necessitara na súplica do preenchimento do tempo, uma razão para existir. O dono da farmácia parecia carrancudo, botava medo em qualquer ser inocente. Mas era só a cara. Aos poucos diante da sua bondade, tornei-me um funcionário sem saber. Os clientes já se acostumavam com a presença ilustre da uma criança companheira que buscava no banquinho um passatempo, que às vezes ajudava no atendimento, mas cujo principal propósito fora ter companhia, e sobretudo, ser companhia. 

Com o passar dos dias, já integrado ao grupo de pertencentes da farmácia, participava de tudo um pouco: dos desabafos e das necessidades dos clientes, dos acontecimentos na avenida, das mesas redondas sobre futebol e das principais novidades que ocorriam na cidade. Brincava com os filhos do dono da farmácia, e participava também de muitas dores, ora ocasionada por uma confusão, e das alegrias, ora ocorridas do cotidiano. Do banquinho, já familiarizado com as pessoas que tomavam diariamente o ônibus, cujo ponto fora a calçada da minha casa, renegava os dias chuvosos, que impedia minha diária presença. Na farmácia, era comum a venda de mel em formato pequeno de “chup chup”. Sempre que chegavam os potes cheios, corríamos esvaziá-los (os filhos do dono) e eu, como se também o fora. Doces e nostálgicas lembranças.