Sonho

Por Alex Maktub 28/05/2021 - 07:40 hs

 SONHO

Era um menino que sonhava caminhar num gramado de um campo de futebol. Desviando-se dos próprios anseios, acreditara aliviar suas dores ao percorrer o imenso tapete verde. Sozinho, na cidade de Ribeirão Preto, sentia na secura do ar a dificuldade extrema de se viver no mundo. Na verdade, fora mais um dentre centenas de corajosos que lutara. Havia muitos prédios no percurso que passara. Muita injustiça também.

Consciente de que a estrada fora longa, chegar ao estádio Santa Cruz, do Botafogo, fora missão. Seus desejos infantis se mesclavam entre pisar num local que aparecera a quase todo instante na televisão, e sentir-se como um jogador profissional, que à beira campo entraria para defender o time do seu coração.

Defronte ao estádio, sua cabeça já pesada, parecia saltar do pescoço. Mesmo assim, ignorava o fato de a dor extrema por acaso tentar impedi-lo a seguir. Minutos que pareceram horas: vislumbrava o estádio como aquele que realmente aparecera na sua tela. Sem ligar para o perigo de permanecer inerte numa rua movimentada, sua camisa tricolor parecia ser mais importante do que os gritos das pessoas que o viam ali, parado. “Saia já daí, garoto”, “Você está louco, será atropelado”.

Exuberante com sua hora de estrela, frente à portaria, olhou curioso o senhor que o avistara também com o mirar curioso. “Da próxima vez tenha mais cuidado, os carros aqui em frente não costumam perdoar”. “Sinto muito, mas é que meu sonho de entrar aí fez-me cego diante da vida cruel do lado de cá”, respondeu. O senhor surpreso pela resposta do menino, por segundos pareceu se lembrar de algo marcante ocorrido em sua vida. Provavelmente sentira da resposta do menino, todas as dores do seu mundo. Sem mais pestanejar, deixou que o menino entrasse, e ainda que da portaria, pôde espiar a emoção contagiante que do garoto provinha.

Fora passos lentos rumo ao mundo mágico. Por minutos que pareceram horas, contemplou a arquibancada, e na sua imaginação, pôde ouvir a torcida ovacionando sua presença. Seus pés cansados ignoravam os calçados velhos e pisaram no gramado como se o melhor jogador mundo ali estivera. Sem mais tempo a perder, correu, como se fosse a corrida da sua vida, rumo ao gol. Pendurou-se nas traves, balançou as redes, imitou o pulo do goleiro e rolou à grama. Tudo com o intuito de realizar o que poderia ser o último desejo da sua vida. Ali ficou, por horas. Adormeceu rente à trave. Assustado, despertou com o chamado do senhor da portaria. Com o sinal positivo do senhor, retirou alguns fechos de grama para levar como recordação. Sabia que não durariam muito, mas enquanto as carregasse em suas mãos, fora um menino que possuíra o mundo em seu poder.