Enchente no Cemitério

Por Alex Maktub 11/06/2021 - 12:37 hs

Aproveitara o caminhar inesperado na orla da cidade cujo tradicional cemitério estivera localizado. Era talvez a única chance. De súbito entrei. Decidi chorar pelos amores que tive e pelos que nunca chegarei a ter. Mas lá estivera ela. Quatro metros adiante, persistia com a ínfima mania de tirar fotos das imagens das pessoas que jaziam nos túmulos.

A cena bucólica, combinava com a direção íngreme pelo qual avistara: aqueles cabelos ruivos, lindos e saltitantes. Pareciam querer desprender-se de seu couro e sobrevoarem diretamente às minhas mãos. Como o espanto do nascer do broto, ela apareceu. Meu coração que fora composto principalmente de raízes, de repente, fez renascer meu amor por ela. Violenta, a tempestade lavava minha alma, mas não carregara minhas dores. Faltava-me ela. Inesperadamente, um muro despencou, a enxurrada por tudo levou.

Amassei uma folha de papel agora. Senti minha vida sendo jogada no lixo. Gosto de escrever em folhas avulsas, rascunhos, e tudo aquilo que quase descarto. Pude novamente ser útil. São como cápsulas, fragmentos de momentos imprestáveis que de repente, dá para reciclar. Como aquele amor perdido que talvez através de uma lembrança, pode ser remendado.

Hoje fui tentar rever a foto dela. Captei seu aroma por um instante. Desejara estar em pleno voo e fragmentar os instantes entre passado, presente e futuro. Imaginei-me cruzando o oceano, onde brincava de desafiar a rota e a passagem do tempo. E no jogo imaginário de fusos horários, aumentara meu amor por ela. Mas ela não era mais ela. Ao menos não parecia. A esperança que ainda habitava em mim, se esvaneceu. E o que dizer daquele momento que ela decidiu romper definitivamente comigo e consequentemente com o passado? Seria talvez uma forma idealizada de lembrar sem sentir a dor? Ou ao menos sem se culpar pelo que já não era culpa? Não velarei mais tais recordações, exceto a que estou contando acima. Voltemos ao causo.

Era uma tempestade fria e violenta. Devido ao calor extremo de outrora, sentíamos os granizos fortes e lascados do céu em nossa direção. Para piorar ainda mais o cenário, a correnteza invadira o cemitério. E o que mais temíamos aconteceu: um dos túmulos já precarizados pelo tempo rompeu-se, e o que havia de resto de lá de dentro saltou. Na surpresa do escorrer da chuva no meu corpo, no sentir do toque da mão dela às minhas, curiosos, mas assustados, fomos até à tumba aberta que deixara exposta os restos do caixão apodrecido: para nossa surpresa, no interior deste, havia folhas e mais folhas negras.