Colheita Feliz

Por Alex Maktub 28/06/2021 - 12:24 hs


Num passado recente quando as redes sociais começavam de fato a se popularizar na vida e no cotidiano das pessoas, era comum ao clicarmos nos perfis de nossos amigos, logo sermos apresentados alegremente por um joguinho chamado “Colheita Feliz”. Embora visualizasse com curiosidade que quase todos os amigos adicionados a minha página jogavam, nunca me interessei. Mas realmente era engraçado ver a fazenda virtual pulsando através das vacas e dos pastos eletrônicos, imaginados por alguém cujo objetivo fora prender o usuário e entretê-lo a ponto de permanecer horas e mais horas frente ao computador.

Lembrando disso, me veio à mente a colheita de mangas que se fazia pelos Campus da USP de Ribeirão Preto. Embora enfermo e proibido de comer, avistava algumas pessoas felizes, com suas frutas colhidas, algumas retiravam sorridentes os fiapos que insistentemente ficavam nos dentes, e assim tais pessoas caminhavam naquelas ruas de paralelepípedo, belas por sinal, por entre as milhares árvores daquele encanto. A vontade guiada pelo desejo proibido minimizava em mim o calor extremo e a secura do ar, naquela época em meados de dezembro. Tempos em que nada fora mais desagradável do que o horário de verão que perdurava desde então.

Outra colheita não tão menos feliz que as citadas anteriormente, fora a colheita de pêssegos verdes que eu fazia enquanto voltava da escola. Tentara talvez colher a doçura fora de época, já que a pressa falava mais alto. E agora, colho palavras, e inimaginavelmente à tentação de acabar com toda fonte de energia provinda das sílabas separadas e distintas, que, mescladas formam frases soltas e fragmentadas, talvez como folhas que se desprendem dos galhos, lanço palavras que desafiam à lei da gravidade e flutuam sem direção afim de viajarem livremente ao encontro de buracos negros.