A lata de leite condensado

Por Alex Maktub 17/09/2021 - 15:28 hs

A LATA DE LEITE CONDENSADO


O estudo bíblico semanal de todas as quartas era previamente iniciado com as angústias passadas durante os dias anteriores, bem como a ansiedade sobre como seria os dias futuros. Assim, aquela mãe batalhadora, observaracuriosa o fato do filho, intermediário dos três filhos que tivera, estudar a Palavra de Deus. O mais novo, olhava assustado os assuntos debatidos, e não disfarçava a tristeza quando nós que ali estávamos, falávamos do irmão mais velho, preso por roubo.


Cada respirar dolorido daquela mãe sofredora fazia perpetuar a tristeza pelo causo narrado. A casa simples, carente de piedade, detalhava o sufoco e a ambição de seguir sobrevivendo, já que viviam numa miséria árdua coroada por uma escassez do que mais básico se podia querer na vida. Thiago, meu companheiro na missão bíblica estudantil, vislumbrava cabisbaixo cada detalhe do ambiente. Sentíamos que o fato de ali estarmos, éramos na verdade precursores de alguma esperança além da esperança bíblica, para aquela família.


Faço um parêntese agora: não sabia que a opção do programa do notebook do qual vos escrevo,   obtém o comando “ditar. Quer dizer que para contar histórias não é necessário nem digitar mais? Não há dúvidas de que reclamamos de barriga cheia. O que será que falta acontecer para percebermos e entendermos quantas oportunidades temos na vida? 


Voltemos ao caso. A senhora sofrida, mãe dos três filhos citados acima, volta e meia nos mostrava as cartas que o filho escrevia. Pedidos de “perdão”, inúmeras frases de saudade, e um extremo remorso, faziam parte do conjunto de escritos do rapaz arrependido. Certa vez, ela nos revelou que um dos únicos pedidos que o rapaz lhe fizera, era levar um pudim de leite condensado, afinal, estivera há mais de um ano na prisão, e o desejo incontrolável lhe tomara conta. A senhora nos contou com uma suavidade tão grande, que Thiago decidiu presenteá-la com o objeto que serviria para saciar o desejo do filho. Os outros dois filhos, sabiam que a mãe pouco tinha para comprar a lata de leite condensado. Sim, era uma pobreza extrema que, quando souberam que o irmão teria seu desejo realizado, era como se eles mesmos tivessem os próprios pedidos atendidos. Na época, pouco entendi a nobreza daquele gesto. O tempo passou. Um dia encontrei a senhora e seu segundo filho. Pouco falaram, mas notei uma alegria tímida. Hoje entendo melhor, ou tento entender, a importância daquele gesto de Thiago, a esperança daquela senhora, e talvez o que o desejo saciado pode ter causado no seu filho preso.