A HISTÓRIA DE JORGE

Por Alex Maktub 27/11/2021 - 01:55 hs


O que vou lhes contar é fruto de uma profunda dor. Mas, não se assustem. Há dores da vida que sentimos com a consciência tranquila, e o sal na ferida não arde mais. De vítima, passamos a saborear o desgosto atrativo daquilo que aconteceu e que não acreditamos. Naquele calor contagiante, estivera ele tentando reencontrar a vida que já não lhe pertencera. Defronte aos pouquíssimos desejos que ainda tivera, Jorge chegara. Na praça do Museu, ignorando o calor entediante que assolara nossos ânimos, seu olhar triste e desolado parecia buscar seus últimos resquícios de esperança. Morador de rua há mais de vinte anos, observara atento o que aconteceria.


Talvez na busca de um pudor que ainda lhe restara, sentira uma obrigação extrema de nos ajudar. Nós que não nos considerávamos ativistas ambientais, mas amantes e ajudadores da natureza. Ao redor dos bancos nus, plantaríamos esperança. Tentaríamos cavar a cova dos abandonados para que no fundo, as raízes já fortificadas de despeito fossem na verdade disseminadas e crescessem na busca de um mundo melhor. E assim, Jorge se prontificou. Demonstrando uma habilidade incrível, manuseava as mudas de árvores como poucos. Suas mãos brutas transformavam-se ao toque delicado das raízes. 


Cultivara a esperança e mesmo vivendo na rua, sonhava em criar uma cachorrinha. No temor e no tremor da própria solidão, tentava esquecer a separação dos pais que viviam em outro estado. Vivera com a cicatriz afiada amenizada por um desejo sombrio e tempestuoso. Sua mulher o acompanhava sempre fiel a seus anseios  exóticos. Determinado, cavou cada espaço propício para o plantio. Realizara no ato solitário o ensejo que seria o passaporte para a realização. A cada nova plantação a possibilidade.


De perto, eu avistava atento sua alegria e seu cuidado prático em finalizar o plantio. Seus dedos bruscos procuravam amaciar a terra com o intuito de não prejudicar a muda. De súbito, vislumbrei os vinte anos posteriores e imaginei como seria no clamor da lembrança momentânea a recordação da cena que tanto nos pegara de surpresa. Entre o futuro e passado havia o presente instantâneo que persistia em nos fazer aprender. Sorte a nossa, que defronte à sabedoria de Jorge, um morador de rua, presenciávamos ali o cultivo da esperança.