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A Lua sob um novo olhar

O astrofotógrafo igaraçuense Tiago Domezi comenta os registros inéditos capturados pela tripulação da Artemis

Atualizado em 08/04/2026 às 17:04, por Netto Dorico.

Tiago faz registros da Lua e de outros planetas a partir do observatório que possui em sua casa, em Igaraçu do Tietê (foto: arquivo pessoal)



Na segunda-feira (6), a cápsula Orion, da missão Artemis II, realizou o sobrevoo histórico que levou quatro astronautas a uma distância recorde de 400 mil quilômetros da Terra. A viagem proporcionou a captura de imagens inéditas do lado oculto da Lua. O mundo ainda processa a nitidez das novas imagens.

Para entender o impacto técnico e visual desses registros, o Jornal O Mirante conversou com o astrofotógrafo e divulgador científico Tiago Ramires Domezi. Com uma audiência de milhões de seguidores nas redes sociais, ele explica como a iluminação sem o filtro da atmosfera e a proximidade da órbita transformam crateras conhecidas em paisagens quase irreconhecíveis.

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"Estamos acostumados a ver a Lua da Terra sempre com um ângulo parecido. Lá, muda tudo. No lado oculto, o relevo é mais acidentado, as sombras são mais agressivas e a sensação de tridimensionalidade é muito maior", explica. Ele avalia que o peso do registro é amplificado pelo fator humano. "Tem um ser humano ali, vendo aquilo com os próprios olhos e mostrando para a gente em tempo real. Dá uma sensação estranha de proximidade, como se estivéssemos ali junto".

VEJA AS IMAGENS DA ORION NO SITE OFICIAL DA NASA

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A diferença técnica entre as fotos espaciais e as capturadas por telescópios terrestres é grande. Domezi pontua que, na Terra, a atmosfera é o principal limitador, causando turbulência e perda de contraste. "Lá em cima, isso simplesmente não existe. O resultado é uma textura muito mais crua, com bordas definidas e sombras mais limpas". Ele destaca que o ambiente espacial revela uma Lua "menos suavizada e muito mais real", onde a ausência de atmosfera impede o espalhamento da luz. "Onde não bate luz, fica praticamente preto. Não é exagero da imagem, é a ausência de luz difusa preenchendo essas regiões".

A cápsula Orion e a Lua (images.nasa.gov)

Questionado sobre qual ponto da superfície gostaria de ver em detalhes, Domezi aponta o Mare Orientale, uma estrutura de impacto com anéis concêntricos gigantes situada no limite do lado oculto. Entretanto, ele ressalta que o maior choque visual será a compreensão da escala. "Estamos acostumados a ver a Lua por telescópios. Quando você leva isso para a superfície, cada detalhe ganha outra dimensão. O desafio será entender o tamanho real daquilo tudo".

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O astrofotógrafo revelou que, se tivesse a oportunidade de fotografar a Lua in loco, optaria por um equipamento full frame de alta resolução, com grande alcance dinâmico e controle manual total. "Um conjunto simples e versátil: uma lente grande angular para mostrar a escala da superfície e uma teleobjetiva para destacar crateras e relevos mais distantes. Na Lua, o desafio não é pouca luz, é o excesso. Luz muito dura, sem atmosfera, com sombras profundas e áreas extremamente iluminadas. Então, o clique perfeito não depende de ISO alto. Depende de controle de luz, fidelidade de contraste e qualidade óptica para traduzir o que realmente está ali", detalhou.
 
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Encantadora
A conexão visual é, segundo o fotógrafo, o motivo de a Lua ainda atrair tanto interesse. "Você não precisa de equipamento caro nem de conhecimento técnico para se conectar com ela. Ao mesmo tempo, ela nunca é a mesma. A fase muda, a iluminação muda, os detalhes aparecem de formas diferentes. Sempre tem algo novo para observar." Por ser um corpo celeste acessível a olho nu, ela quebra expectativas quando revelada em detalhes. "Aquela ‘bolinha no céu’ vira um lugar real, com montanhas e crateras. Essa combinação de familiaridade e surpresa é o que prende a atenção", diz. Para os entusiastas que desejam começar a registrar o satélite, o conselho é técnico: "a Lua não é um objeto escuro, é um objeto muito iluminado. O primeiro passo é aprender a controlar a luz para a imagem não estourar, mesmo no celular".

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Embora acredite que imagens sozinhas não vençam o negacionismo, que classifica como algo além da falta de informação, Domezi vê na missão Artemis uma ferramenta de aproximação. "Quando você vê uma imagem dessas feita por pessoas reais, isso traz a ciência para um lugar concreto e verificável". Para ele, o momento é de uma virada histórica. "Por décadas, a Lua ficou no passado; agora, voltou a ser presente. E, pela primeira vez, uma geração inteira está acompanhando isso em tempo real. Isso muda a forma como as pessoas se conectam com a astronomia. Deixa de ser algo distante e passa a ser algo que você pode observar, entender e até registrar daqui da Terra. O impacto maior está em fazer as pessoas voltarem a olhar para o céu com curiosidade", concluiu.