O brinde da classe média
O recente levantamento do IPC Maps sobre o potencial de consumo de bebidas alcoólicas no Brasil acende um alerta que vai além das planilhas de faturamento. Em 2025, os gastos das famílias brasileiras com álcool passaram de R$ 40,5 bilhões, um crescimento real de 11,3% em relação a 2024. No recorte regional de Barra Bonita e Igaraçu do Tietê, os dados revelam uma face específica desse fenômeno: o comportamento das classes B e C no hábito que fica no limite entre o lazer e o risco, o prazer e o vício.
Na Cidade Simpatia, as classes B e C movimentam, somadas, mais de R$ 7,4 milhões anuais em bebidas fermentadas e destiladas. Esse volume financeiro supera os gastos das extremidades da pirâmide social, mostrando que o álcool se consolidou no orçamento doméstico deste nicho que movimenta a economia.
Chama a atenção a velocidade com que o topo da pirâmide acelerou o consumo. Em ambas as cidades, a classe A registrou uma alta superior a 22% nos gastos em relação ao ano anterior. Esse fenômeno sugere uma sofisticação do hábito, possivelmente voltada a produtos de maior valor agregado, mas que não esconde a onipresença da substância em todos os estratos sociais. Problemas pessoais, transtornos ou algumas doenças também podem ser responsáveis pela alta no consumo dos ricos.
Enquanto isso, na base da pirâmide (classes D e E), o consumo em Barra Bonita apresentou uma leve retração, o que pode indicar que a inflação e a perda de poder de compra forçaram uma escolha difícil entre o essencial e o supérfluo.
A análise do mercado local também reflete uma mudança estrutural no setor de serviços. Enquanto o fechamento de bares e restaurantes geridos por microempreendedores individuais (MEIs) recuou 5,2% nacionalmente, grandes redes e estabelecimentos de maior porte continuam a se expandir. Isso sugere que o consumo não está diminuindo, mas se concentrando em canais de distribuição mais robustos ou migrando para dentro das casas, o que dificulta o controle social e a percepção do excesso.
O Dia Nacional de Combate ao Alcoolismo, celebrado em 18 de fevereiro, alerta para uma reflexão sobre esses números. O álcool é, historicamente, a droga que mais onera o sistema público de saúde e a principal causa de acidentes de trânsito e violência doméstica. Ver o Estado de São Paulo liderar o ranking nacional, com R$ 10,4 bilhões destinados ao setor, é um indicativo de que as políticas de conscientização podem estar perdendo a corrida para o apelo comercial e a normalização cultural do beber.
É importante verificar que o crescimento de 20,1% no consumo total em Barra Bonita e de 22% em Igaraçu do Tietê se configura não apenas um indicador econômico de vitalidade de mercado. Surge como um dado de saúde pública. Quando as famílias aumentam seus gastos com substâncias psicoativas em um ritmo superior à inflação ou ao crescimento do PIB, o país precisa discutir os motivos que levam a esse cenário.
Deve-se reforçar as redes de apoio e prevenção, seja por parte do Poder Público ou da sociedade civil. O desenvolvimento regional não deve ser medido apenas pelo potencial de consumo, mas pela capacidade de promover o bem-estar social. O crescimento econômico que se apoia no aumento desenfreado do consumo de álcool traz consigo um custo invisível que, cedo ou tarde, a sociedade será chamada a pagar.













