Verdade com interesse também é fake News?
Fatos reais tornam-se mentiras quando a intenção é omitir o cenário completo.
O limite entre fake news e má fé é estreito. Se antes a preocupação central era a mentira fabricada em laboratórios digitais, hoje o desafio é mais sofisticado e, por isso, mais perigoso. O fenômeno não se restringe apenas ao invento do que não existiu, mas à manipulação do que é real. É a desinformação em forma de curadoria, onde a verdade é usada como matéria-prima para a construção de narrativas sob encomenda.
Em páginas locais de rede social, que colocam nome da cidade como endosso, as informações são vomitadas da forma que seus mantenedores julgam ser a mais adequada. No caso desses perfis sem identificação de autoria, sempre são pendentes a algum lado, geralmente político.
Assim se forma um novo fenômeno, que é noticiar a verdade sem credibilidade. Ou pior, usá-la como meio de manipulação, o que gera um efeito colateral preocupante: a anomia informacional. O cidadão, bombardeado por meias-verdades que confirmam seus próprios preconceitos, perde a capacidade de distinguir o fato da interpretação. Nesse cenário, o jornalismo perde sua função de mediador da realidade para se tornar apenas mais um ruído na disputa pelo controle das percepções. O interesse público passa a ser abalado mediante as conveniências partidárias ou ideológicas.
A credibilidade se dá, no mínimo, quando o conteúdo tem uma cara. A Constituição Federal prevê a liberdade de expressão, desde que não seja anônima. Esconder-se atrás de avatares e nomes falsos é a maior prova que o interesse em postar não é o da coletividade, mas sim de um determinado grupo - ou até mesmo individual.
Nesse contexto caótico da desinformação, veículos de comunicação que mantém redes sociais passam a publicar conteúdo de forma aleatória, com o objetivo, ao que parece, de apenas não ficar para trás do concorrente que postou primeiro. Não há checagem nem apuração, apenas o clicar de um botão que compartilha automaticamente ou o famoso copia e cola, que dá um pouco mais de trabalho.
É exatamente isso que o Mirante não quer para seu formato digital. Ao dar o passo inicial para uma migração gradual do formato impresso para a internet, a credibilidade que o jornal carrega ao longo de 23 anos será nosso guia primordial. Noticiar somente em busca de likes ou audiência não é a postura que adotamos no impresso e levaremos essa conduta para qualquer outro meio, seja internet ou rádio. Aquele assunto que está rendendo em vários perfis de Facebook só fará parte de nosso conteúdo digital se houver algum fundamente na informação, e esta for de interesse público.
Pode ser que a crise de confiança que assola o ambiente digital seja parte do jogo, levando todos a se aprender lidar com isso. Quando a notícia é selecionada apenas para ferir um adversário ou proteger um aliado, ela deixa de ser informação e passa a ser munição.












