A nova fronteira da regeneração celular
Pesquisadores brasileiros desenvolvem polímero capaz de guiar a recuperação de nervos e tecidos lesionados; substância baseada em proteína natural abre caminho para tratamentos de paralisia e queimaduras graves
O custo da patente internacional da polilaminina quase foi perdido por falta de verbas públicas. A pesquisadora responsável chegou a pagar taxas do próprio bolso para garantir que a propriedade intelectual da descoberta permanecesse vinculada à pesquisa brasileira
Uma proteína em formato de cruz, presente em quase todos os tecidos do corpo humano, tornou-se a peça central daquela que pode ser a maior descoberta da medicina regenerativa brasileira na última década. Pesquisadores do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP conseguiram sintetizar a polilaminina, uma versão polimerizada da laminina natural, que funciona como um andaime biológico para células danificadas.
A descoberta ataca um dos maiores problemas da medicina, que é a dificuldade do corpo em regenerar tecidos complexos, como os neurônios. Em lesões de medula ou nervos periféricos, o organismo costuma formar uma cicatriz que impede a passagem de sinais elétricos. A polilaminina entra nesse vácuo, criando uma trilha química e física que as células usam para atravessar a lesão e se reconectar.
A trajetória da substância começou no final dos anos 1990, mas ganhou tração com o trabalho da Dra. Tatiana Coelho Sampaio. Ao observar como a laminina se comportava em ambientes que simulavam a acidez de uma inflamação, a equipe descobriu que a proteína se organizava em redes complexas, muito mais potentes que a proteína isolada.
A gente percebeu que a célula não precisava só do material, ela precisava de uma estrutura que fizesse sentido para ela, explica a pesquisadora. A polilaminina não é um remédio comum que você toma e ele circula no sangue; ela é um suporte físico. É como se déssemos a régua e o compasso para o neurônio voltar a crescer no lugar certo.
Os primeiros resultados práticos impressionam. Em testes com animais e protocolos experimentais em humanos, a aplicação do composto em formato de hidrogel permitiu que pacientes com perda parcial de movimento recuperassem funções que antes eram dadas como perdidas por médicos e fisioterapeutas.
Aplicações clínicas
Além da neurologia, a ortopedia começa a testar o composto para acelerar a consolidação de fraturas que não fecham sozinhas. Na dermatologia, o uso em grandes queimados tem reduzido o tempo de internação, já que a polilaminina convence as células da pele a se multiplicarem com maior velocidade e menor índice de rejeição.
O desafio agora é a escala. Produzir polilaminina exige um controle rigoroso de pureza e temperatura. Não é algo que se faz em qualquer farmácia de manipulação. Precisamos de biorreatores de alta precisão para manter a integridade da malha proteica, afirma Tatiana.
Cirurgia tem melhores resultados logo após lesão
Diferente de um remédio convencional, a polilaminina exige uma intervenção cirúrgica de alta precisão. A aplicação ocorre diretamente no local da lesão medular, funcionando como uma microcirurgia de reconstrução de ambiente.
O protocolo atual sugere que os melhores resultados ocorrem quando a aplicação é feita nas primeiras 72 horas após o trauma. Nesse período, a inflamação ainda está ativa e a cicatriz glial (quando células criam um tecido denso para isolar a área danificada e funciona como uma barreira física para os nervos) ainda não se consolidou totalmente.
Durante a cirurgia, que dura cerca de 40 a 60 minutos, o médico realiza a descompressão da medula e injeta a polilaminina, geralmente em formato de hidrogel. A substância preenche o vácuo deixado pela lesão, criando uma ponte que permite a circulação de nutrientes e o crescimento de novos axônios.
A cirurgia é apenas o primeiro passo. A polilaminina cria a estrada, mas o paciente precisa de fisioterapia intensiva para ensinar os novos nervos a transmitir os sinais motores novamente.
Atualmente, a polilaminina encontra-se na fase 1 de ensaios clínicos, autorizada pela Anvisa em janeiro de 2026. Esta etapa foca na segurança do composto, que passa a ser testado em um grupo pequeno de voluntários para garantir que não haja toxicidade ou efeitos adversos graves.













