Uma auditoria externa contratada pela Prefeitura de Barra Bonita identificou um passivo financeiro estimado em R$ 11,3 milhões na Associação do Hospital e Maternidade São José. Entidade privada sem fins lucrativos, a instituição destina cerca de 90% dos seus atendimentos ao Sistema Único de Saúde (SUS) por meio de contratualização com o município.

Os resultados do levantamento foram apresentados em reunião realizada no dia 8 de outubro na sede do Executivo municipal. O ato contou com a presença do prefeito Manoel Fabiano Ferreira Filho, do diretor do hospital, Marcos Peroto, do secretário municipal de Saúde, Nilson Ereno, e do representante do Conselho Deliberativo da entidade, Sérgio Caleffi Junior, além de autoridades locais.
A fiscalização técnica foi conduzida pela empresa MSS Gestão em Auditoria e Administração Hospitalar, com trabalhos presenciais realizados entre 23 de julho e 30 de setembro de 2026. A análise cobriu a movimentação financeira e contábil do período de 2023 a 2026, com foco na verificação da aplicação de recursos públicos federais, estaduais e municipais repassados à unidade de saúde, que conta com 65 leitos cadastrados — sendo 47 voltados ao SUS.
Segundo a auditoria, o diagnóstico apontou inconsistências administrativas, como a mistura de verbas públicas e privadas, retenção e não repasse de tributos e elevação de custos operacionais sem planejamento prévio. Diante dos apontamentos apresentados pelo auditor Leandro Carneiro Sanches, um plano de recuperação administrativa e financeira será elaborado e encaminhado ao Ministério Público do Estado de São Paulo.
ÍNTEGRA DA NOTA DA PREFEITURA DE BARRA BONITA
Auditoria contratada pela Prefeitura da Estância Turística de Barra Bonita identificou um passivo estimado em R$ 11,3 milhões na Associação do Hospital e Maternidade São José. A entidade é privada e sem fins lucrativos, e 90% de seus atendimentos são pelo SUS, contratualizados com o município.
A empresa MSS Gestão em Auditoria e Administração Hospitalar, responsável pelo trabalho, apresentou os resultados em reunião realizada no dia 8 de outubro, na sede da Prefeitura.
Participaram da apresentação o prefeito Manoel Fabiano Ferreira Filho, o atual diretor do Hospital São José, Marcos Peroto, o secretário municipal de Saúde, Nilson Ereno, o representante do Conselho Deliberativo do hospital, Sérgio Caleffi Junior, e outras autoridades.
A análise cobriu as contas de 2023 a 2026, com trabalho presencial entre 23 de julho e 30 de setembro de 2026. O hospital tem 65 leitos cadastrados, dos quais 47 são destinados ao SUS. Segundo o auditor Leandro Carneiro Sanches, da MSS, o objetivo foi verificar como foram aplicados todos os recursos públicos recebidos pela instituição, sejam federais, estaduais ou municipais.
▪️ RESISTÊNCIA À FISCALIZAÇÃO
De acordo com a auditoria, a então direção administrativa do hospital resistiu e se recusou, no início, a entregar documentos. Foi preciso expedir ofícios formais, e o caso foi registrado no Relatório de Auditoria nº 01/2026, que aponta descumprimento de liminar e ocultação de documentos.
▪️ “CONTA MISTA” E TRIBUTOS NÃO REPASSADOS
Um dos achados considerados mais graves envolve a movimentação bancária. Pelo contrato, os recursos públicos deveriam ser geridos apenas em conta vinculada na Caixa Econômica Federal. A auditoria constatou que verbas federais e municipais do SUS eram transferidas com frequência para uma conta no Banco do Brasil. Lá, eram misturadas a receitas privadas, doações e convênios. Isso impede rastrear o dinheiro e compromete a prestação de contas ao Tribunal de Contas do Estado (TCE-SP).
O relatório também aponta que o hospital descontava FGTS e contribuições patronais dos funcionários sem repassar os valores à Receita Federal e à Fazenda. As dívidas eram renegociadas em parcelamentos longos a cada poucos meses, o que acumulava multas e encargos. Só em 2026, foram cinco novos acordos.
▪️ FORNECEDORES E ENERGIA ELÉTRICA
Em setembro de 2026, o débito de curto prazo com fornecedores de medicamentos, materiais e serviços somava cerca de R$ 3,1 milhões. Como perdeu crédito em plataformas digitais de cotação, o hospital passou a comprar à vista e por preços mais altos.
A dívida com a CPFL se arrasta desde 2018 e passa de R$ 1,5 milhão. Segundo a auditoria, as contas mensais, de cerca de R$ 17 mil, também não vêm sendo pagas. O fornecimento só não foi cortado por se tratar de serviço essencial.
▪️ CUSTOS ACIMA DO CONTRATADO
A auditoria identificou mudanças feitas sem estudo econômico e sem acordo com a Prefeitura:
• Laboratório: a troca do serviço terceirizado (R$ 38 mil/mês) por equipe e insumos próprios (R$ 80 mil/mês) gerou impacto não planejado de R$ 504 mil por ano.
• Radiologia: o custo subiu de R$ 8,6 mil para R$ 17,6 mil mensais, impacto de R$ 108 mil por ano.
• Maternidade: por falta de escala médica, partos passaram a ser encaminhados a um hospital de Lençóis Paulista. Lá, uma cesárea custava R$ 5.463,63, enquanto o repasse do SUS é de R$ 2.182,92. O débito com a entidade parceira chega a R$ 208 mil.
• Cirurgias eletivas: a interrupção da escala de anestesistas derrubou a receita mensal do SUS Paulista de R$ 207 mil para R$ 136 mil, uma perda de R$ 71 mil por mês.
Se você combinou gastar 100 mil por mês, não pode no mês seguinte dizer que vai gastar 150 mil.
▪️ DÉFICIT E PATRIMÔNIO NEGATIVO
Entre janeiro e agosto de 2026, o hospital teve déficit operacional médio de R$ 143,6 mil por mês, com receitas de R$ 1,70 milhão e despesas de R$ 1,84 milhão. O resultado anual passou de superávit de R$ 271 mil em 2023 para déficits de R$ 358 mil em 2024 e de R$ 1,76 milhão em 2025. Em 2025, o patrimônio líquido ficou negativo em R$ 8,26 milhões. O índice de liquidez corrente é de 0,33, ou seja, o hospital tem R$ 0,33 disponíveis para cada R$ 1,00 de dívida de curto prazo.
A auditoria lembra que, em 2023, um aporte municipal de mais de R$ 1 milhão permitiu reduzir os leitos de 98 para 65, com 175 funcionários. Em 2026, com os mesmos 65 leitos e produção menor, o quadro chegou a 204 funcionários. Em 52% dos desligamentos, o aviso prévio foi pago sem que o funcionário trabalhasse o período.
▪️ PASSIVO TRABALHISTA E REVELIA
A auditoria analisou 35 processos trabalhistas, com risco de perda provável estimado em R$ 4,62 milhões. O relatório aponta omissão grave do departamento jurídico, com prazos perdidos e ausência em audiências. Em um único processo, de cerca de R$ 2,82 milhões, a instituição não apresentou defesa nem compareceu à audiência. O hospital já abriu sindicância sobre o caso.
▪️ PLANO DE RECUPERAÇÃO
Após a apresentação da auditoria, foi apresentado o Plano de Recuperação e Reestruturação Institucional (PRRI), também no dia 8 de outubro, na sede da Prefeitura.
O documento foi assinado pelo prefeito, pelo secretário municipal de Saúde, pelo presidente do Conselho Deliberativo e pelo presidente da Diretoria Executiva do hospital. As ações estão previstas para os próximos 12 meses, e o plano será encaminhado ao Ministério Público.
O primeiro passo é a governança. Será criada uma comissão mista com representantes da administração hospitalar, da diretoria, do Conselho, de funcionários de diversos setores e da Secretaria Municipal de Saúde. O plano também prevê a contratação de uma empresa ou gestor com experiência comprovada em gestão hospitalar.
▪️ SANEAMENTO DAS CONTAS
A conta mista será encerrada. Cada convênio passará a ter conta própria, separada dos recursos privados e das doações, com conciliação bancária diária para garantir a prestação de contas ao TCE-SP.
Para a dívida com a Receita Federal e a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN), que passa de R$ 3,59 milhões, o plano propõe uma transação tributária. Parte dos débitos seria quitada com a oferta de procedimentos especializados demandados pela rede municipal de saúde. O objetivo é garantir a emissão contínua da Certidão Negativa de Débitos (CND).
Também estão previstas a revisão de todos os contratos de locação, a transformação de áreas administrativas ociosas em salas para locação a clínicas e consultórios, a venda ou o descarte de equipamentos obsoletos e novas regras para o uso de veículos e demais bens do hospital.
▪️ NOVAS RECEITAS
O hospital pretende destinar até 40% da capacidade do centro cirúrgico e dos serviços de diagnóstico a pacientes particulares e de convênios. A ideia é ampliar as cirurgias eletivas para atender também a demanda regional e criar pacotes cirúrgicos de baixa e média complexidade a preços competitivos para quem não tem plano de saúde.
O plano prevê ainda estudos para implantar uma Unidade de Cuidados Intermediários (UCI), com pedido de financiamento federal, e um ambulatório com consultas especializadas e exames. Outra meta é reduzir o tempo de permanência dos pacientes no Pronto-Socorro, o que melhora o giro de leitos e ajuda nos pedidos de aumento do teto de média e alta complexidade (MAC) e de repasses da Tabela SUS Paulista.
▪️ REDUÇÃO DE CUSTOS
Entre as principais medidas de eficiência estão:
• Pessoal: retorno gradual do quadro ao patamar pactuado em 2023, com controle de horas extras e faltas. Hoje são 204 funcionários, 26 a mais que naquele ano.
• Médicos: ajuste das escalas à demanda real do município e da região.
• Farmácias: unificação das duas farmácias em um único espaço, com controle eletrônico de estoque.
• Tomografia: instalação de um tomógrafo no hospital, operado por empresa terceirizada e credenciado para atender o SUS, para evitar o transporte de pacientes a outras cidades.
• Equipamentos: plano de manutenção e reativação de aparelhos parados, como os de videolaparoscopia, o arco cirúrgico e o raio-X portátil, para retomar cirurgias eletivas.
• Compras: todas as aquisições de medicamentos e materiais passarão pela plataforma eletrônica Bionexo, para reduzir compras emergenciais e mais caras.
• Energia e segurança: acordo para quitar a dívida com a CPFL, melhor aproveitamento da usina solar, renegociação da locação do gerador e conclusão do AVCB (Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros).
▪️ CRONOGRAMA
O plano está dividido em três fases:
• Fase 1 – Estabilização e governança (1 a 12 meses): encerramento da conta mista, criação da comissão mista, contratação do novo gestor e controle do uso dos veículos.
• Fase 2 – Saneamento e reestruturação (2 a 12 meses): adesão à transação tributária, renegociação com a CPFL e fornecedores, unificação das farmácias, reativação de equipamentos e lançamento dos pacotes cirúrgicos. A meta é obter a CND e reduzir em pelo menos 10% o déficit mensal.
• Fase 3 – Consolidação e crescimento (6 a 12 meses): funcionamento pleno do comitê de gestão e ampliação das cirurgias eletivas. A meta é chegar ao equilíbrio entre receitas e despesas e reduzir a fila de cirurgias.
▪️ APORTE DA PREFEITURA
O plano estabelece que um eventual aporte financeiro da Prefeitura de Barra Bonita só será avaliado depois que as medidas de redução de custos forem implantadas. Hospital e Prefeitura farão juntos uma reavaliação técnica para definir se há necessidade real de recursos extras.
O documento ressalta que a situação financeira completa só ficará clara quando a nova gestão tiver autonomia total sobre a administração do hospital. Também reconhece que, mesmo com o plano em andamento, o déficit pode continuar e exigir um aditivo financeiro ao contrato.
O relatório completo da auditoria tem mais de 130 páginas. Para o auditor, a recuperação depende do empenho de todos os envolvidos: diretoria, administração, funcionários e Prefeitura.












